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Corporate governance a quanto obrigas

O desvio do enfoque na estratégia para o cumprimento das regras de corporate governance e o aumento dos custos de auditoria, consultoria e recrutamento são algumas das preocupações dos executivos face às novas regras de corporate governance. Christopher Clarke, presidente da Boyden, deu uma conferência sobre o tema em Lisboa e apresentou os resultados de um estudo conduzido no Reino Unido, EUA e Austrália - POR CRISTINA PEREIRA

Corp Gov Quanto Obrigas Quem é Christopher Clarke? »» De nacionalidade britânica, Christopher Clarke é doutorado em Economia e Gestão. Professor Convidado de Estratégia no Henley Management College desde 1995, Clarke já foi presidente e membro da Strategic Planning Society e um dos directores da Association of Executive Search Consultants (AESC), bem como da International Association of Corporate and Professional Recruiters (IACPR).

Antes de assumir a presidência da Boyden Global Executive Search, em Nova Iorque, Clarke prestou consultoria de estratégia e finanças em grandes multinacionais, na qualidade de vice-presidente de uma empresa de consultoria global e de director-geral de um banco de investimento “boutique”. Viveu e trabalhou na Europa, Ásia e Estados Unidos e intervém frequentemente em conferências, tendo redigido mais de 150 artigos sobre estratégia, finanças e recursos humanos.

»» Os desafios que hoje se colocam à corporate governance – ou governo das sociedades – estiveram em discussão no passado dia 8 de Outubro na Universidade Católica, em Lisboa. A conferência teve por base um estudo conduzido este ano no Reino Unido, Estados Unidos e Austrália pela Boyden Global Executive Search, empresa especializada em recrutamento e selecção de recursos humanos altamente qualificados. Foi o seu presidente, Christopher Clarke, que apresentou as conclusões.

Bastante crítico em relação ao modelo americano de corporate governance, Christopher Clarke afirmou que os últimos escândalos contabilísticos puseram a nu as falhas daquele sistema. Mas, conforme sublinhou, a vaga não atingiu apenas a América. “Sou britânico e no Reino Unido também sofremos a devastação da Marconi”, anuiu. “Em todos os países há gestores que prejudicam as empresas que geram”.

Um dos aspectos que o orador salientou como prejudicial a uma boa corporate governance foi a acumulação do cargo de CEO e de presidente do conselho de administração, que vigora nos Estados Unidos. De acordo com o estudo da Boyden, 70 por cento das principais empresas britânicas têm aquelas funções separadas. Na Austrália, esta percentagem sobe para os 90. O próprio Christopher Clarke se declarou muito satisfeito por contar com outra pessoa na Boyden que assegure a função de presidente do conselho de administração.

Uma possível explicação para os problemas que se têm verificado no âmbito da corporate governance pode residir na psicologia. Christopher Clarke citou os trabalhos de investigação do psicólogo Robert Hare (ver caixa), que afirmou que alguns dos piores escândalos contabilísticos poderiam ter sido evitados se todos os CEOs fossem submetidos a um exame que aferisse das suas tendências psicopatas. Segundo Hare, um por cento da população é psicopata.Éóbvio que, no caso da população de uma prisão, aquela percentagem sobe vertiginosamente (40 por cento, de acordo com Hare) e, nos serial killers, chega aos 80 por cento. Mas nem todos eles se tornam assassinos sangrentos. Muitos encontram um ambiente perfeito para os seus instintos no mundo dos negócios. O que quer dizer que a falta de honestidade e a ganância reveladas nos últimos escândalos contabilísticos poderão perfeitamente ser obra de gestores com tendências psicopatas.

Como evitar, então, recrutar um psicopata para funções de topo? “O nosso sector tem de ser melhor a encontrar as pessoas certas, a verificar o seu background e outros sinais”, afirmou Christopher Clarke.

A fraude parece ser o resultado óbvio do casamento entre desonestidade e carta branca para gastar. “As ofertas públicas de venda, as fusões e aquisições envolvem tanto dinheiro que é natural que pessoas desonestas sejam levadas à fraude”, declarou o orador. Sentar amigos à mesa do conselho de administração, oferecer grandes salários e stock options são alguns dos aspectos que ajudaram ao descontrolo que se verificou. “Toda esta conspiração conduziu a excessos e posteriormente a escândalos”, acrescentou.

Daí todo o burburinho em torno das novas regras de corporate governance. “Há pessoas que perderam todas as poupanças de uma vida porque investiram nas acções de empresas que depois foram arruinadas pelos escândalos”, salientou o orador. “Estas pessoas estão furiosas. E são eleitores”. Razão mais do que suficiente para os políticos se preocuparem em lançar legislação adequada.

Oportunidade para as mulheres

Destacando algumas conclusões do estudo da Boyden, Christopher Clarke adiantou que existe grande preocupação por parte da gestão de topo que a economia mundial seja prejudicada devido ao desvio do enfoque da estratégia e das operações para o cumprimento das regras de corporate governance. Com a imposição da aversão ao risco, o “jogar pelo seguro” pode de facto reduzir o retorno do investimento.

Os custos são outra inquietação. Trata-se de custos de auditorias – “uma das queixas dos CEOs foi a de que os auditores triplicaram o custo das auditorias às grandes empresas”, como salientou o orador –, mas também de consultoria, de recrutamento de recursos humanos qualificados e relativos ao próprio conselho de administração. Obrigados a devotar mais tempo às suas funções devido às novas regras, os membros do conselho de administração exigem também pagamentos mais elevados. “Mas o custo real é o do desvio da atenção, que se afasta da estratégia e da oportunidade”, declarou o presidente da Boyden.

A entrada de pessoas independentes e estranhas ao sector no conselho de administração é também uma preocupação dos executivos de topo. Christopher Clarke salientou que esta é uma grande oportunidade para as mulheres, “porque existem poucas nos conselhos de administração. Podem ser vistas como talento fresco”. Referiu ainda que existe um mercado para 100 mil cargos de gestores de topo nos próximos três a quatro anos.

Em jeito de conclusão, Clarke advertiu que a corporate governance “é uma jornada, não um destino. Nunca será perfeita. Necessitará sempre de melhorias”. O que não significa que a tarefa esteja perdida à partida. “Se continuarmos a fazer melhorias graduais, teremos uma melhor corporate governance”, concluiu. E, apesar de ser ainda cedo para aferir do impacto das novas regras, Clarke é da opinião de que existem já sinais de que as pessoas começam ter preferências de investimento por empresas com uma boa corporate governance.

Você tem um psicopata no escritório?

Colegas – ou chefes – exasperantes e prepotentes existem em qualquer escritório. Mas como fazer a distinção entre o simples “chato” e um psicopata? Se ligou imediatamente a palavra psicopata a Hannibal Lecter ou a outro “serial killer”, saiba que não é necessário chegar a tais extremos para uma pessoa ser clinicamente considerada um psicopata. Na verdade, eles estão em todo o lado. Na secretária ao lado da sua, por exemplo.

Foi com este espírito que Robert Hare, um dos maiores especialistas mundiais em psicopatia, se juntou ao também psicólogo Paul Babiak para lançar “Snakes in Suits: When Psychopaths Go To Work”. O objectivo do livro, que ainda não foi publicado, é o de alertar o comum empregado de escritório para a possibilidade de que o seu divertido mas exasperante colega (além de narcisista e pouco digno de confiança) seja de facto um psicopata. Foi Hare quem definiu a psicopatia para a ciência moderna através de um questionário exaustivo, a “Psychopathy Checklist” (PCL-R), que, lançada em 1980, acabaria por se tornar numa ferramenta internacionalmente reconhecida para a identificação de psicopatas.

De acordo com o especialista, o PCL-R demonstrou que os psicopatas estão em todo o lado. Na sua maioria não são violentos, mas todos deixam um rasto de destruição nos seus ambientes familiares e de trabalho, usando e abusando de colegas e parentes, manipulando constantemente os outros e reinventando-se continuamente a si próprios. Apesar de calcular que a incidência de psicopatas na população seja de um por cento, Hare considera que os danos que infligem na sociedade são totalmente desproporcionais ao seu número, até porque gravitam em torno de profissões “high-profile” que oferecem a promessa de controlo sobre os outros, como a lei, a política, a gestão de empresas e... – bem, se Hare o diz – o jornalismo.

Quais são os traços de carácter mais marcantes do psicopata? A lista é pródiga: dissimulação, arrogância, insensibilidade, ausência de remorsos ou de empatia, superficialidade, impaciência, imprevisibilidade, desconcentração, estilo de vida parasítico, persuasão, manipulação, egocentrismo, falta de ética e intimidação. Recorda-lhe alguém? Antes de começar a pensar que toda à gente à sua volta é psicopata, lembre-se que só com um diagnóstico fiável é possível estabelecer a certeza. Além disso, se Hare diz que um por cento da população é composta por psicopatas, em Portugal não temos mais de cem mil.

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